domingo, 19 de maio de 2013

K'haley - Final

  Quando acordei, estava chovendo. Turn me observava em silêncio enquanto D'well estava pendurado nas janelas, parecia estar falando com alguém.
  -Você acordou! - Ele me disse. - Angelina guiou soldados até a entrada da floresta. Estão todos te esperando. - O vulto que estava do outro lado da janela estendeu um embrulho para ele. - A seu comando eles irão invadir.
  Eu peguei o pacote e o desembrulhei. O florete estava lá.
  -Amanhã a noite. Quando Turn iluminar essa mesma janela. - O vulto assentiu e foi embora. Me encostei encarando a espada. - O que eles pretendem fazer nessa invasão?
  -Nos resgatar. Os limites da cidade estão todos protegidos por soldados humanos. Eles irão provocar uma distração.
  -Ótimo. - Eu já tinha meu próprio plano formulado.

  A noite seguinte chegou e a chuva não parou. Turn se aproximou da janela e deu uma baforada dourada. Em seguida já se dava para ouvir sons de batalha. Eles estavam avançando. Eu cheguei perto da porta e pelas pequenas grades que ela continha visualizei uma cabeça:
  -O que está acontecendo? - Tentei fazer uma voz mais apavorada possível.
  -Nada que não podemos resolver. - Mal terminou a frase e foi atacado. E a porta se abriu. Uma ninfa amarela sorriu e saímos correndo.
  Todo lugar que eu olhasse, só se via batalhas. Dragões esmagando humanos e eles revidando com suas armas estranhas.
  -Eu vou atrás de Acaiah. D'well, pegue Turn e saia daqui. - D'well provavelmente falou algo para me impedir, mas eu já havia ido. Ele obviamente é esperto. Deixar seu exército se sacrificar enquanto se esconde. É muito fácil reconhecer a casa de um líder humano, a maior, mais imponente e mais bonita com certeza é uma possibilidade.
  A casa que escolhi era feita de pedra, a princípio simples por fora, mas por dentro era ricamente mobiliada com tapetes por todo o chão e tapeçarias decorando a parede, observei fios de ouro decorando todas. Peças de ouro e prata estavam espalhadas pelo corredor. O lugar parecia menor visto de fora.
  O silêncio me seguia enquanto eu explorava todos os quartos. Foi então que ouvi passos, eles estavam próximos. Me escondi dentro de um dos muitos armários que encontrei pelo corredor. Subitamente alguém entrou ali e depositou sua mão em minha boca:
  -Silêncio. - Pela fresta da porta pude ver uma sombra cruzando o corredor. De onde aquela pessoa havia saído?
  Quando os passos finalmente não era mais ouvidos, eu o empurrei para fora. Tinha cabelos negros e uma pele branca. Apontei minha espada em seu peito, o impedindo de levantar.
  -Quem é você?
  -Meu nome é Cistam. Segui você até aqui. Vai precisar de um guia.
  -E o que faz você achar que eu confio em sua espécie?
  -Só eu posso te levar até lá, já que George não está aqui. - Isso me fez hesitar.
  -E o que você ganha com isso?
  -Você é sempre tão desconfiada? - Um barulho metálico ecoou e dois humanos surgiram no final do corredor. - Eles nos viram.
  Antes de eu poder esboçar qualquer reação, ele já estava me levando pelo corredores parecendo saber exatamente seu destino.
  Ao despistarmos aqueles humanos, me encontrei uma sala repleta de espelhos. Espelhos, no teto, nas paredes e até no chão. A qualquer lugar que eu olhasse, só via nossos reflexos fantasmagóricos.
  Era impressão minha ou uma névoa estaria se formando a nossa volta?
  -Não olhe nos espelhos por muito tempo, eles possuem algum tipo de feitiço. - Ele me disse, mas sua mensagem não teve êxito. Hertch olhava para mim do outro lado do espelho. Ele estava tão radiante quanto eu lembrava. Esticou sua mão até o vidro que nos separava, fiz o mesmo e logo nossas mãos se encontraram. Não era preciso falar, nos comunicávamos através do olhar. Por um momento me senti em paz, até que sua forma foi mudando, suas orelhas de elfo desapareceram e seu cabelo loiro escureceu. Tornou-se alguém familiar que no momento não reconheci.
  Tudo ao meu redor era escuridão também. E um grito agudo começou a ficar cada vez mais alto. Um grito insuportável que drenou completamente minhas forças. Fechei meus olhos e tampei os ouvidos esperando que o barulho cessasse.
  Acordei com Cistam olhando para mim. Ainda estava cercada por espelhos e ele parecia preocupado. Me levantei e senti minha asa latejar:
  -Você ficou vidrada no espelho e depois desabou. Existe algum tipo de magia vindo desses espelhos.
  -Magia de sereia. - Segurei firme meu colar com o cristal e a escama.
  -Tente não se distrair. Concentre-se em mim. - Ele me ajudou a levantar e segurou minhas mãos, me guiando através do salão. Só então reparei que ele tinha os mesmo olhos azuis de Hertch.
  -Você nunca ficou vidrado por esses espelhos?
  -Uma vez. - Senti que isso encerrava sua confissão.
  Finalmente chegamos ao fim daquela sala. Ao cruzarmos a porta, um grande alívio tomou conta de mim, mas senti um pressentimento de que aquilo foi algo importante.
  -Como você sabe o caminho? - Ele me guiou até uma escada pouco iluminada. Começamos a descer.
  -De acordo com ele, George não tinha potencial para ajudar em seus objetivos. Por isso me escolheu.
  -Você tinha potencial. Então porque está traindo seu mentor?
  -Eu nunca disse que estava do lado dele. - Sempre com uma boa justificativa. Mas há algo estranho com ele. Se eu for direta, ele irá negar, mas eu tenho certeza de que eu esteja certa sobre isso.
  Continuamos descendo até uma porta de ferro. Ela não tinha maçaneta, apenas estava lá, apenas deduzi que fosse uma porta, já que não tínhamos mais para onde ir:
  -Ele está aí dentro. O que pretende fazer?
  -Acho que fazê-lo passar pela mesma coisa que ele fez Turn passar é um bom começo.
  -Volte viva. Há coisas que você precisa saber.
  -E você achou mesmo que eu perderia suas explicações Hertch? - Ele sorriu para mim, então tocou a porta e esta se abriu, entrei sem olhar para trás.

  Ele estava sentado e sua expressão convencida não se alterou ao me ver. Não se mexeu, apenas me observou aproximar:
  -Não pensei que tivesse a habilidade para me achar.
  -Tive alguma ajuda. - Apontei meu florete para ele, apenas alguns centímetros de seu pescoço. - E você? Não vai revidar? Não tem nenhum truque na manga? - A sala era toda branca, apenas com sua cadeira.
  -Não. Mas antes de você me matar, ou seja lá o que vou fazer, quero que escute uma história. Caso não tenha percebido, eu não sou humano completo.
  "Eu tenho sangue de sereia. Minha mãe era uma. Depois que vocês perderam a guerra, muito anos atrás, os humanos as dominaram. Muitas delas voltaram para o buraco de onde saíram, mas algumas arriscaram viver no meio dos humanos."
  -E por que está me contando isso? - Perguntei, sem abaixar o florete.
  -Tenho pouco tempo, achei que você gostaria de saber que seu povo não foi o único a perder. Isso também explica Cistam. Você sabe quem ele é de verdade, não sabe?
  -Quer dizer que você sabia o tempo todo?
  -Minha mãe salvou seu amado, Ninfa. - Magia das sereias o salvou. Que irônico.
  -Mais alguma coisa?
  -Não. Eu não esperava que fizesse você mudar de ideia, mas eu não posso garantir que seu lado sairá vitorioso.
  -Isso não é uma guerra. Ninguém ganhará ou perderá. - Ele sorriu antes de eu cravar a espada em seu coração. Um fino fio de sangue escorreu até sua expressão ficar vazia. Meu trabalho havia acabado.
  Quando voltei para a cidade, estava tudo um caos. Localizei uma ninfa:
  -Recuar! - E assim a mensagem foi passada e todos começaram a recuar para a floresta. Eu os guiei de volta para a Clareira. Com todos em seu lar, reuni as poucas ninfas azuis e comigo elas começaram a curar todos aqueles que estavam feridos. A chuva finalmente havia parado.
  Ao final da tarde, deixei o caos das ruas e fui na direção da minha casa. No caminho vi Angelina e George juntos. Eles superariam, assim como todos os humanos. Finalmente paz.
  Ouço alguém entrar no meu quarto:
  -Não quer ouvir minhas explicações? - Era Cistam ou Hertch? Assenti e ele sorriu. - Eu sabia que você me reconheceria. Apesar de meu exterior estar diferente, ainda sou eu por dentro.
  -Como?
  -Eu também pensei que eu tinha morrido, mas assim que fui atingido, acordei em um lugar totalmente diferente e uma mulher estava lá. Uma sereia. E ela usou sua magia para impedir de que me espírito fosse embora. Por isso ela substituiu meu corpo por este.
  -Por que não veio atrás de mim?
  -Você não acreditaria em alguém que tem aparência humana. Quando vi você entrando na casa de Acaiah, percebi que era a minha oportunidade. A sala dos espelhos te mostrou certo?
  -Sim. - Ele sorriu e me abraçou. - Me prometa que nunca mais sairá de perto de mim.
  -Eu prometo.

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